A sala do silêncio

Atualizado: 24 de ago. de 2021

Li um texto que me transportou (sem parada para respirar) direto para a salinha do hospital onde tirava leite para a Marina. Ela não tinha força para sugar no peito, tomava na mamadeira, alternando com fórmula.


A sala tinha horários para seguir, então precisava ficar atenta para não perder. Era sempre a última atividade do dia antes de deixar meu coração na UTINeonatal e levar meu corpo para descansar em casa.


Tinham também vários procedimentos para seguir que no início eu me atrapalhava com a ordem. Mesmo depois de repetidas vezes, em algumas mais distraída, tinha que mentalizar o passo a passo, em silêncio, para não ter que fazer tudo outra vez ou ter que descartar o leite coletado. Imagina, já não era muito!


Frases nas paredes lembravam que não importava a quantidade em mls no potinho, mas sim o tamanho do nosso amor. E eu me apegava a isso, esperando que o tempo permitido ali na sala terminasse e que deixasse algo no potinho.


Por vários dias, quando ainda não sabia o diagnóstico da Marina, me sentia deslocada. Simplesmente não tinha assunto com as outras mulheres que dividiam o espaço comigo. O assunto começava pelo peso do bebê (a maioria prematuros e a Marina era enorme perto deles!) por quais procedimentos tinham passado (a Marina, só exames e exames), as expectativas (não sabia o que esperar), um pouco da história de cada uma fora do hospital (esse era bem mais raro).


Não sabia nem responder o que minha filha tinha, porque estava lá, para onde estava indo a investigação do diagnóstico. Era um sentimento de angústia do total desconhecido. Eu nunca havia sentido antes, mas não era maior que o amor que eu já tinha certeza que sentia por ela.


Na sala, algumas precisavam falar para seguir e suportar aqueles dias. Eu precisava calar. E assim seguimos: palmas no corredor para quem estava levando seu coração para casa e a cada semana a configuração daquela salinha mudava. Chegava silêncio, mas também chegava vida, amor, superação.



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